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DA FOTOGRAFIA COMO CELEBRAÇÃO DA VIDA

 

Por incontáveis vezes repetida, já alcançou o senso comum a possível origem etimológica do vocábulo 'religião', proveniente do latim religio, -onis, que o autor cristão Lactâncio remeteu a re-ligare; nessa medida, o fenômeno religioso estaria originariamente vinculado à necessidade de restauração de uma unidade perdida – o que, por sua vez, leva-nos a evocar um conjunto de experiências comuns à condição humana: os sentimentos de falta ou de perda, a consciência de uma incompletude fundamental, a insuperável certeza da finitude. Considerado desde essa perspectiva, o ser humano é, e sempre será, um exilado existencial, que apenas de forma provisória poderá encontrar asilo ou abrigo, até o momento em que, rompida pela eclosão do absurdo, a estabilidade cotidiana revelará sua precaridade; então, mais uma vez consciente de sua insignificância, buscará forças para reconstruir os invisíveis castelos que lhe servirão como refúgio.

 

Talvez possamos compreender dessa forma o surgimento, em algum momento do passado – e qualquer datação se torna dispensável quando o que está em questão são experiências atavicamente humanas –, de um rústico altar à beira da estrada, em decorrência de um trágico episódio  apenas conhecido e preservado por figuras anônimas: nem todas as vidas, afinal, merecem as melhores páginas dos jornais, ou menções nos principais noticiários. Na verdade, o esquecimento do que constitui a especificidade é o que faculta que, em casos como esse, o particular se torne universal: porque todos, enquanto humanos, conhecemos ou conheceremos vivências igualmente trágicas, capazes de fender as triviais estruturas que sustentam nossas rotinas; porque todos, enquanto humanos, sempre estamos sujeitos a enfrentar acontecimentos que nos recordarão de nossa própria finitude, somos capazes de encontrar ali um mítico símile para nossas trajetórias. Em outras palavras: porque não conhecemos aquelas devotas cujas vidas foram subitamente interrompidas, elas nos parecem estranhamente familiares.

 

Não há, afinal, uma distância tão ampla entre nós e aqueles que, consumada a tragédia, deram início ao ritual de depositar estátuas de santos, flores verdadeiras ou artificiais, terços e colares sobre a laje de concreto deitada diante das cruzes gêmeas que assinalam o local onde ocorreram as mortes. Sua precariedade é a nossa; não somos menos frágeis, na medida em que somos igualmente humanos. E a espontânea criação desse ritual que, pouco a pouco, fez da laje um espaço dedicado à religiosidade popular espelha todo o conjunto de hábitos cotidianos que, uma vez cristalizados, ajudam-nos a esquecer as contingências que a cada momento nos ameaçam.

 

Podemos, não obstante, estender essa reflexão até a sequência de atos fotográficos que constituem a obra assinada por Márcio Pannunzio. Houve, decerto, uma primeira visita, um gesto inaugural que produziu uma primeira imagem; mais significativo, no entanto, é o regresso – ou a sequência de visitações que, repetindo-se ao longo do tempo, sedimentou-se em um novo ritual, desta vez estético, que produziu a obra artística a partir daquele templo outrora gerado por um ímpeto religioso. E, se quisermos levar adiante essas considerações, por que não poderíamos pensar também o ato de contemplação artística, revisitando incontáveis vezes o altar ao percorrer a sequência de imagens criadas por Pannunzio, como um terceiro ritual – ainda essencialmente vinculado ao gesto originário, perdido em tempos pretéritos?

 

De fato, em cada uma das séries de atos que possibilitaram desde a consagração da laje de concreto em altar até a sua inscrição no campo artístico pelo registro fotográfico e a sua contemplação já como objeto estético, é porventura possível vislumbrar um processo que acaba por consolidar uma dinâmica que encerra – de forma mais ou menos explícita – a construção de um sentido que, de modos diversos, atende ao que há de mais essencial no re-ligare. O que todas aquelas dinâmicas partilham, afinal, é a tentativa de superação da finitude e de esquecimento da falta fundamental que subjaz à condição existencial humana; desse modo, o absurdo pode ser relegado a um segundo plano, ou mesmo olvidado – ainda que de forma ilusória, por meio de recursos cuja fragilidade é evidente –, e o trágico acontecimento é convertido naquilo que possibilita a consolidação dos rituais, das rotinas e dos hábitos constitutivos das formas da existência cotidiana.

 

O que ao fim importa, senão assegurar que seja possível continuar vivendo, ainda que para isso precisemos esconder de nós mesmos o constante risco das contingências? Abrigados em nossas frágeis zonas de conforto, reafirmamos a nós mesmos que seremos capazes de exercer algum controle sobre o imponderável, sustentando a certeza dos amanhãs sobre os quais nada sabemos – sequer sabemos, na verdade, se existirão; o esteio de que dispomos se limita, afinal, ao passado. Ainda assim prosseguimos, confiantes em nossas rotinas, como aqueles que continuam a depositar diante das duas cruzes os objetos que ali se acumulam, fazendo dos ritos particulares uma obra única, que Márcio Pannunzio insiste em registrar.

 

De fato, se cada fotografia é singular, isso não se deve apenas a variações de enfoque, luminosidade ou de qualquer outro elemento formal; deve-se também ao fato de que o altar é sempre outro, graças à renovação facultada pela permanente devoção de anônimos homens e mulheres, que incessantemente recria aquele arranjo de objetos oferecidos em silêncio e reverência. Conquanto o episódio que possibilitou o surgimento daquele espaço consagrado representasse um dúplice encerramento, o rito devocional constitui sempre um novo começo, na medida em que faz nascer sempre um novo altar; e, se consideramos que a continuação da existência é consequência das renovações contínuas, isto é o que podemos entrever no trabalho fotográfico de Pannunzio: uma celebração da vida.

 

Henrique Marques Samyn

Rio de Janeiro, maio de 2014