Márcio Pannunzio: a poética do avesso

 

A interpretação por parte do autor da imagem sempre deve corresponder à interpretação do observador. Nenhuma imagem conta sua história (Gombrich, 2012, p. 48)

       

O trabalho de Márcio Pannunzio é a mais pura representação da contemporaneidade. E, como um artista preparado para atuar na comunicação de sua época através das artes visuais, Pannunzio selecionou as linguagens do desenho, da gravura e da pintura para expor suas idiossincrasias, sem amarras, sem receios e sem rótulos.

Verdadeiramente, quando se vislumbra a poética aqui em foco, percebe-se que o universo plástico de Pannunzio é o nosso. Em uma época de tantas incertezas, de imensos descompassos entre as sociedades e a falta absoluta de valor à vida, o trabalho do mestre em questão cristaliza de forma ilimitada nossos anseios, vitórias e derrotas típicas do ser humano moderno, tão forte e tão frágil ao mesmo tempo.

É relevante destacar que a obra aqui em evidência nos revolve por dentro: é contundente, impactante, desconcertante e irresistivelmente atraente.

Percebemos em análise mais acurada que a obra de Pannunzio mantém um eixo condutor – a figura humana. A sociedade aqui presente já foi brutalmente atacada pela morte e pela dor, e sofre de uma tristeza quase que atávica, mas resiste, ressuscita e segue adiante, fracionada, repartida, porém inestancável.
Auxiliando de forma persistente esses seres em transformação, detectamos, por vezes, o uso da palavra, sempre em tom sarcástico e até irônico. A força de um trabalho tão plural repousa exatamente aí: fugir da placidez de uma “chave comum” e abrir caminhos, todos os caminhos que nos representam, trazendo à tona certa luz e, sobretudo, ampliando de forma nuclear quem somos, ao destrancar concomitantemente toda a nossa escuridão.

É, portanto, visível na obra de Pannunzio o constante progresso de uma poética distante de um passado mais tranquilo e despreocupado com o amanhã. Aqui, a situação é o oposto, é outra. Não há paz. O que há nessas obras é o constante desassossego de um obra-tempo que não espera aceitação de ninguém, implacável como rolo compressor que abocanha o futuro e se deixa revelar em parte – o restante só é possível através de nós, os fruidores.

Pannunzio pertence àquele conjunto de artistas que sofregamente produz, ou seja, resolve os seus e os nossos demônios por meio das artes visuais e traz para a arte brasileira relevantes exemplares das técnicas reconhecidas e reverenciadas como clássicas, com uma pitada toda especial – ele as revira pelo avesso e as expõe como filhos nascidos em um mundo de revolta.

Inevitavelmente, estes trabalhos estão infectados do DNA humano, são uma feliz junção da moralidade e imoralidade das sociedades, e ainda estão em construção. Que venham muitos mais, que explodam em agressividade a cada nova mostra. A práxis de Márcio Pannunzio é a sua verdade, cabe a nós apenas desfrutá-la.

 

Paulo Leonel Gomes Vergolino

 São Paulo, inverno de 2021

 

Bibliografia

GOMBRICH ESSENCIAL: Textos selecionados sobre arte e cultura. Organização: Richard Woodfield. Tradução: Alexandre Salvaterra. Revisão técnica: Paula

 

Ramos. Porto Alegre: Bookman, 2012. 624p. il.; 25 cm.